Terça-feira, Julho 20, 2010

Lalo & A Cidade Desaparecida


Sonho com uma cidade indistinta até me tornar rua” e no meio de parte alguma, além do que se quis ser palavra, aqui, a cidade de postal ilustrado desaparece para devolver ao desencanto a forma e o seu espaço natural: o lugar, a cidade enquanto grande parque de estacionamento. É assim que me surgem as atmosferas irrequietas à beira um quase sonambulismo, simbolicamente enganador, quase adormecidas entre as letras da Cidade Desaparecida, um misto de abandono que devolve uma amálgama de interiores abstractos sem solução aparente e a angustia de quem sonhou a cidade em reconstrução.

Confesso, que me ocorreu, após a leitura destes textos de Lalo Arias, um outro de Al Berto, A Morte de Rimbaud, que das mesmas águas, separadas na distância, se assemelham na forma, na substância da cidade que já não existe senão no desejo de pertença a algum “lugar”, a um tempo, e a outro, objecto de rejeição inominável, mas omnipresente: não há lugar a ajustes de contas, a duelos, mas a uma recolha de dejectos quotidianos, sem ressentimentos, sem indignação, sem soluções ou questões, apenas fragmentos de ruas e ruas que já só fazem parte duma cartografia abandonada:

a verdade é que passei a vida a fugir, de cidade em cidade,
Com um sussurro cortante nos lábios.
e atravessei cidades e ruas sem nome, estradas, pontes que ligam
uma treva a outra treva.
caminho como sempre caminhei, dentro de mim – rasgando paisagens,
Sulcando mares, devorando imagens.” (Al Berto, A Morte de Rimbaud)

Como se Al Berto, numa outra parte da estação da vida, tivesse retirado da bagagem a matéria de que se compõe a Cidade Desaparecida: pequenos actos diários que se sacralizam pela rotina, pequenos retalhos que se confundem dentro de imagens distantes e tão próximas, por não se deixarem cicatrizar. Lalo, não desmonta peça por peça a cidade esquecida, lá atrás, no tempo: contempla-a como que a um pântano, de onde recolhe aqui e ali, amostras de águas fétidas, há muito adormecidas, “para safar-se do medo, esquecer da última queda”, e retomar mais adiante “o absoluto, sobre a face da terra”, onde a nostalgia já não é uma ferida, mas um pedaço de sangue que teima em acontecer, em respirar, já sem razão aparente, já sem razão possível:

o regresso nunca foi possível.
o verdadeiro fugitivo não regressa, não sabe regressar, reduz os continentes
a distâncias mentais.
aprende a fala dos outros – e, por cima dele, as constelações vão
esboçando o tormentoso destino dos homens.(Al Berto, A Morte de Rimbaud)

Como se Lalo Arias, nestas pequenas catedrais desoladas que Al Berto cantava, (e aludia já à distância no tempo a Lalo, poderia jurar…) estivesse dentro, não da essência, mas da distância, sabendo impossível o regresso à Cidade Desaparecida, que não renascerá, que não ressuscita, já não magoa: faz parte duma sombra, ilusão que já não acontece.
E Lalo Arias, se não encontra a cidade, se não a devolve a quem se inventa nela num traço constante, sobrevive incólume, sem lamentos, sem remorsos, sem saudades. Um despojo basta… um despojo que aconteceu um dia.

II.

E se pouco cito Lalo, em comparação com o Lalo, não é sem razão: tenho, ainda em meu poder, um exemplar que deveria ter sido “entregue” em 5 de Julho, mas por motivos que me ultrapassam, não o foi… até dia 8 de Agosto será, então, entregue nos moldes que anteriormente foram divulgados! Um exemplar, assinado pelo autor, pronto a ler… com todas as letras!



Cities por Talking Heads

4 palavras ou mais:

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

Pungente... intenso... e já diriam as escrituras: "é preciso perder-se para se encontrar." ;)

nydia bonetti disse...

sempre
andei pela cidade
me sentindo invisível

agora
que ela desaparece
encontrei meu lugar

finalmente-posso tocá-la


Vocês dois me emocionam.

Beijos

O Matuto disse...

me lembrou As Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino...
belo blog...seguirei acompanhando...a
abs

dade amorim disse...

Cidades são um tema sem fim. Nelas tudo cabe e tudo vive.
Na Cidade Desparecida de Lalo encontrei suas habituais imagens competentes para desencanto, ternura, enigmas. Enfim, imperdível.
Linda resenha, Leonardo.
Um abraço amigo.

About This Blog