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... para o Pele&Osso de Neuza Pinheiro
“Os livros estão sempre sós. Como nós. Sofrem o terrível impacto do presente. Como nós. Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar. Como nós. Calam a sua fúria com a sua farsa. Como nós. Têm fachadas lisas ou não. Como nós. Formosas, delirantes, horrorosas. Como nós. Estão ali sendo entretanto. Como nós. No limiar do esquecimento. Como nós. Cheios de submissão ao serviço do impossível. Como nós.»
de Tisanas, Ana Hatherly
… e têm gente dentro, gente como nós... soubesse eu em que lugar acrescentar essa linha no livro que me traz: o da Neuza Pinheiro, Pele&Osso, que me aquece as mãos neste frio Inverno e que me conduz na ruga espinhosa das mãos, que trago entre os braços, e tem de tudo um pouco do que se faz raiz tronco de mãe-de-fogo poesia, e ainda um pouco mais: mais que alma que se fez das tripas num rude coração, coração de nascente na foz, mais que víscera de palavra, pele, carne ou osso, mais que felina mão da poeta (quantas vezes a centelha restante do astro cansado se refaz nessa mão?) rompendo calmamente, derramando águas placentas de palavra, neste, neste pequeno objecto que trago na mão e chamo livro, livro como nós; e mais que tudo isso, é a poeta que migra para a raiz da mais forte das árvores, traço do sobro sobreiro (essa sólida imitação, representação da terra que se rasga aos céus) e pelo tronco adentro, até à copa que toca céus, transcreve a palavra, vive veículo da palavra gravada (por vezes rude coração rupestre e noutras frágil placenta demais), e se faz livro. E do livro, como nós? Ousa Neuza ser como à mais forte árvore, também, e deixando a casca do ano, da vida, a casa da palavra por cortiça que espalha devagar em cada verso, em cada nó de sílaba que se quebra luz e refaz (em nós, por nós), e com cinzel tinta perpétua, grava, grava e faz da cinza da palavra o grão da tatuagem, não na pele da árvore, tal como os amantes na sua efémera eternidade o fazem, mas no osso, no tutano mortal da árvore feita livro, livre natureza maior. E com que força, poderosa e serena, a poeta tatua por dentro do tronco do livro, tão somente a palavra, como se fora um traçado, um rascunho de coração terreno que ávido se alimenta das águas placentas da vida, essa fermento universal da palavra (sempre a palavra, em sangue ou tinta),e com a precisão, com a delicada espera e emergência, na urgência de cada verso, cada poro de epiderme no tempo, por dentro dessa árvore imaginária e de corpo presente, num crescendo simultâneo até à ramagem, alma e copa do mundo, a Neuza constrói cada verso serena urgência, e com serenidade insculpe, entalha cada poema dentro do livro, dentro do poema, que rejeitado ou não pela sede dos homens, permanece, cresce, anima o enigmático tronco do grito do mundo. Em Neuza existe a certeza que cresceram entre nós mulheres que colheram directamente da terra a sua própria raiz… e nasce a poesia, essa prece chave do enigma maior do mundo… e então, nós?
Saberemos recolher por confidências do mundo, as “espirais do espíritos” que se vão revelando pela mão da Poeta, maturando por dentro do tronco do poema, quase “osso das coisas”, a composição, a tão simples proposição do corpo celeste que delicadamente se faz escrita maior?
Saberemos o quão sólida raiz da árvore, que caminhando dentro do verso, do cada seu verso se faz grito mudo, urgente como as às árvores que brotam na pele do silêncio? Não sei e quem saberá de nós?
Quem saberá colher no tempo presente essa palavra no tronco escavado, corpo e primitivo passageiro, esse poema que feito esteira e verso na vela ao vento, ao invento do corpo que se fez seiva, transformado foi em navio e astrolábio da vida; ousa Neuza, um poema, “que não pede, não implora”, que se grava dentro do peito como a seiva bruta na alma da árvore, e nós? Quem saberá entre ilhas, o barco côncavo da árvore, “os ventos, eventos, imagens/nuvens fazem e desfazem” a ordem das coisas, a resina abandonada pelo verso, esse velho “Sabor do Veneno”, doce veneno? Quem de nós, quem saberá?
A mim, àquele outro eu em mim, o que me cabe por quinhão de esconder por detrás destas palavras, não pretendeu procurar mais que uma impressão, uma palavra que recolhida na manhã em que o carteiro me trouxe de Santo André do outro lado do mar, este livro que trago e abraço, que faço também de minha, minha Pele&Osso, recolhendo um sinal emocionado de quem tem a vida entre as mãos (a vida, o santo e senha da poesia no mundo), na forma deste rubro coração de livro; e ainda que não sejam mais que inexactas as emoções dum anónimo sem habilitações do mundo, aquele que neste momento agradece o verso “numa perspectiva de transmigração das almas”, senta-se e deixa o verso fluir nesse pouco de espaço, nesse tronco que se fez mãe da tinta sábia na palavra da Neuza Pinheiro, e pouco mais, porque àquele outro em mim, não sabe, não sei…
… e pouco mais, até porque pretendia resgatar a escrita, a impressão ingénua de quem pensa que sabe o mundo, e neste, deste livro que trago por mais uma delicada ruga na mão (de que não me desfaço e guardarei pelo tanto que o tempo me permita) substituir o acontecer, saber ler onde a espuma do verso se fez na onda a asa do anjo, mas do tanto quanto sei no “terrível impacto do presente”, agora, por ora não sei: emudeço, como ficaria qualquer um de nós!
Último Dia do Mês de Fevereiro, 2012
Leonardo B.
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